Guarde depois de ler…

E se eu morrer, por favor, não me bote numa caixinha, nem numa caixona. Caixão? Nem pensar. Quero é ser absorvida pelo mar e seus mistérios. Deixe que a areia me cubra quando a noite fria chegar. Deixa as ondas mansas fazerem trança no meu cabelo ainda morno, e as ondas bravas enxaguarem os resquícios de tudo aquilo que desnecessariamente me apeguei. Me permita descansar sob os olhos vigilantes e gentis de Iemanjá. Mãe minha, mãe tua. Mãe de todos os Oris.

Se eu morrer, não se preocupe em esquecer meu nome, ele estará na esquina de todas as coisas que vivemos. Tente se lembrar de minha voz dizendo que ainda há tempo, mas que não há tempo a perder. Se eu morrer, doe minhas roupas e meus calçados. Não guarde tudo, permita que outras pessoas caibam no que já foi meu e sorria com a possibilidade de que elas, também, cultivarão memórias e texturas. Tudo costurado ao tecido da roupa, do corpo. Eu já fui, outros ainda virão. 

Guarde nossas conversas, mas não tenha pressa em visitá-las. Lembra que a saudade mora no caminho não-linear do luto. Tem hora que nos chama a todo minuto, tem hora que não, e tudo bem. Se você me esquecer em algum momento do dia, ou do mês, não significa que fui embora, quer dizer apenas que a tua memória precisava descansar de tanta ausência minha. Se eu morrer, guarde minhas palavras, mas não guarde todas. As que realmente importam sempre ecoarão no teu discurso.

E por último, tenta lembrar, mesmo em meio ao caos dos gritos ou ao murmúrio ensurdecedor dos silêncios, que eu realmente nunca parti. Lembra-te, mesmo na dor, que um pedaço de mim vive em ti. E que lar mais pomposo esse meu. Lembra-te que eu vivo no teu abraço, na tua palavra, no teu olhar arregalado sempre que algo novo desabrocha à sua frente. E pensa talvez, que esse algo novo seja eu, esperançosa do lado de cá, a te sorrir de volta porque cruzei, assim, desavisada mesmo, um pensamento teu. 

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A Menina Estrangeira