A Menina Estrangeira

O quarto tinha uma arquitetura banal. Nele, havia três camas feitas de cimento chapiscado, duas de casal para as irmãs mais velhas e uma de solteiro para ela. As telhas de cerâmica vermelha se encaixavam umas nas outras sobre a congruência das ripas de madeira que iam de norte a sul, leste à oeste no céu da casa. Tinha um pé-direito tão baixo que a menina brincava de procurar os nós das ripas— seu passatempo favorito antes de dormir. Ela tinha porém, outros hábitos noturnos. Secretos. Frutos, quem sabe, de uma adolescência prematura.

Certa noite, quando o ronco alto e demorado de seu pai ecoou pelo estreito corredor entre a cozinha e a sala de estar, ela se levantou da cama erguendo o tronco infantil do travesseiro de algodão, caminhou até à cama do meio, que ficava em frente à tevê. Os dedos curtos e finos surrupiaram o controle remoto em cima da penteadeira. Ela se sentou vagarosamente na beirada do colchão e mirou o objeto para a tela. Apertou o botão de ligar. 

Seu corpo miúdo não fazia peso nem diferença sobre a cama da irmã, mas Josefa tinha sono leve e a língua grande. A menina então olhou para trás, prendendo a respiração e cuidando para que nenhuma fração de seu corpo a denunciasse. O lençol sobre o rosto da irmã Josefa se mexia sincronizado com a respiração dela. A menina então virou de costas para o gigante adormecido, pôs os pés sobre a margem da cama que sobrava para fora do colchão, um por um. Os joelhos pontudos se dobraram, apoiou ali os cotovelos.

Ela gostava de rock n' roll. O gênero do diabo, a música que antecipava a abertura das portas do inferno, seu pai lhe disse certa vez ao flagrar a filha balançando a cabeça acompanhando o barulho que saía do rádio. As palavras, no idioma que ela não entendia, eram só ritmo. Uma euforia que ela injetava no silêncio vespertino do campo. Quando seu pai lhe proibiu de tocar rock n' roll no rádio, as tardes voltaram a ser bullying e roubar manga no terreno do vizinho, o que ela até gostava porque, do alto da mangueira, mal dava para escutar a provocação perversa das crianças.

A menina tinha ambições que não entendia, mas que a libertavam da realidade que a cercava. Ela gostava de observar as emoções dos outros. Às vezes, só assim para ela decifrar as próprias. Ela sabia da psique humana, olhava para alguém e logo sabia o que o outro estava sentindo. Até o dia em que ela viu o objeto brilhante na mão do pai— o cinto de couro preto dobrado ao meio, com espinhos de metal reluzente que corriam, ponta à ponta, por ambas as bordas. Cinto este que ele segurava com a certeza de quem não conhece o erro. Ela assistiu ele açoitar Josefa até esvair-lhe o ar dos pulmões. Ao final da surra, o olhar fatigado do pai justiceiro fitou a menina e declarou: "Que isso sirva de lição pra vocês duas."

 As mãos trêmulas da pobre Josefa apalpavam com cuidado as pernas, de onde brotavam gotas lampejantes de sangue. Um orvalho oriundo do horror. A menina olhava para o sangue e depois para as lágrimas da irmã. Sentiu um desejo imediato de pedir perdão pelo delito que ela desconhecia. Em seu nome e em nome de Josefa, que só balbuciava lágrimas. A menina achava que lição era uma coisa boa, porque ela adorava ir para a escola aprender lições. Sua professora disse certa vez que lição deixava a criança mais sabida e o adulto mais educado. Ela não se lembrava porém, de haver nada sobre choro e sangue nas aulas da professora tampouco nos livros que leu. Daquele dia em diante, a menina desistiu de adivinhar o sentimento dos adultos, porque entendeu que tudo o que eles sentiam se traduzia em raiva. Muito embora houvessem outros sentimentos guardados ali debaixo da ira, era tarefa difícil para um adulto a de ser sincero consigo mesmo sobre os próprios sentimentos.

Ela era uma criatura obediente a maior parte do tempo, mas quando se tratava de rock n' roll, algo misterioso e lúdico a preenchia completamente, fazendo seu comportamento mudar. Devia ser o diabo mesmo lhe dando lições de rebeldia, ela desconfiou, mas o pensamento não a interrompeu. Quando o colorido das imagens preencheu o quadrado inteiro da televisão, ela sorriu hipnotizada. Notou que seu coração batia muito rápido. Cuidou para não se mexer demais. Olhou para a porta de cima a baixo, mas fixou o olhar na maçaneta. Inerte, graças a Deus. Ocorreu-lhe que se fosse pega em flagrante, não podia escapar nem se defender. Vez ou outra, olhava para a porta. Lembrou-se do orvalho escarlate nas pernas de Josefa. Comparou a magreza das próprias pernas com as pernas da irmã. Se o pai lhe desse uma surra de mesma intensidade, levaria as pernas da menina embora. No entanto, ela ponderou que a vida era muito curta para não se arriscar um pouquinho que fosse.

O cantor tinha braços longos e finos, coloridos por tatuagens em vermelho e amarelo. Ele sorria pouco, mas quando sorria, tinha cara de popstar. Ele franzia a testa e cantava com a boca aberta. Na pista, os fãs vestiam preto e bandanas de caveira na cabeça. Faziam um sinal de heavy metal com as duas mãos— numa época onde ninguém tinha que se preocupar em segurar o celular o tempo todo. Eles cantavam junto com a banda— num tempo onde ninguém era obrigado a filmar a experiência antes e assistir ela depois. As pessoas na arena, todas sortudas. Dava para ver que eles deixavam a música entrar nos poros da pele noite adentro. 

A menina franzia a testa também e balançava a cabeça. O pé esquerdo batia no ritmo da canção. Ela acompanhava a música porque queria fazer parte daquilo tudo, queria estar do outro lado da tela, pulando na pista junto com os outros e vestindo roupa preta de gente cool. Mas no vilarejo onde ela morava só tocava música local. 

Forró, Baião e Xaxado. Música dentro daquela língua que ela compreendia, a língua materna, matriarcal. Ritmo que revirava, sem causar dor, as entranhas daquela gente toda. Da roça, do vilarejo, do sertão. Baião de dois, baião de todos.

Música de seu pai e de sua mãe, música da irmã Josefa e da irmã do meio e dela. A caçula, a prematura de tudo. Mas a música da cidade grande não era bem vista ali, então ela a admirava em segredo. Porque a música da cidade grande a chamava toda noite. Às vezes, tudo o que ela queria fazer era soltar os cabelos e pular bem alto, mas, para isso, ela tinha de aumentar o volume do rádio e isso não era permitido. Às vezes, ela imaginava o que aconteceria se se fundisse a música da cidade com a música do sertão. Eita, que mistura bonita da gota serena não daria, mas aquele era um sonho distante para ela, tão distante quanto o vilarejo era da cidade. 

Na música derradeira da banda, ela tocou a tela com uma das mãos. Se emocionou como se tocasse o rosto do famoso pela primeira vez e se desse conta que ele também era de carne e osso. Se sentiu boba, mas era um boba bom, infantilmente permitido. Eles cantaram. Ela cantou junto. A menina não sabia a letra, mas conhecia o ritmo de cor e salteado. Ela cuidava de decifrar o sentimento da música. O som, o tom e o dom. E isso lhe bastava.

Daí a melodia acabou, o espetáculo também. Ela desligou a tevê, levantou devagar no caminho de volta para a própria cama. Cobriu-se com um lençol de algodão fino e branco. Deu um longo suspiro e, antes de pegar no sono, imaginou para onde aquela gente toda ia quando o show acabava. Onde será que cabia tanta gente junta ao mesmo tempo, senão dentro da pista do show do rock? Talvez eles se espalhassem em pequenos grupos e fossem comer hamburger numa lanchonete ali perto, pegar o metrô de volta para casa, ouvir mais rock n' roll no rádio antes de dormir.  

Da cabeceira da cama, ela via os dedões dançantes arranhando o lençol imóvel. Achava graça que os próprios pés fizessem um ruído fino como se fossem rasgar o tecido, mas não rasgavam. A música ainda pulsava em seus ouvidos, diluindo o barulho peculiar da fazenda. Inspirou fundo algumas vezes para acalmar o corpo que queria pular de alegria, dançar no meio da rua. Rua? Que rua? Não havia rua, só embargo. De música alta, de rock n' roll, de dançar balançando a cabeça. Antes de ceder ao sono, ela se imaginou adulta na cidade grande, assistindo sua banda favorita bem de perto. Mas ela não era uma criatura boba. Sabia que o tempo passaria e que, quando ela crescesse, a banda estaria velha demais para tocar para a multidão. Mas ela sabia do tempo, das coisas e dos sonhos.

Daí, astuta que era, ela fez um pedido. Quis que o tempo passasse rápido para ela ser moça crescida logo. Ela queria pertencer e queria se deslocar, queria todas as nuances caóticas da vida adulta que ela via na tela da tevê. Era uma alegria que a sufocava, mas ela a permitia porque aquela sensação agitava os pêlos do corpo. E aquilo para ela é que era viver. E isso era tudo o que ela queria. Viver aquela vida, fosse lá o que ela fosse. A vida do campo era um silêncio profundo, um aconchego. Mas a menina era ruído e solidão. O cheiro do orvalho noturno a incomodava. De que cor será que ele era? No dia seguinte porém, quando o Sol iluminava as goiabeiras nas primeiras horas da manhã, a menina se lembrava que ela era também sítio e criança. E a certeza de que a cidade morava dentro dela era suficiente para fazê-la esperar o tempo passar.

Anterior
Anterior

O Ano Era 2020

Próximo
Próximo

Guarde depois de ler…