O Livro de Três Décadas e Meia

1998. A alvorada daquela manhã me acordou devagar. O som calmo e constante das gotas de chuva que massageavam as folhas das árvores lá fora indicava que era hora de levantar. Nunca entendi a natureza dúbia da mãe natureza, que ora acalenta com chuvisco, ora devasta com tempestade. Mas fosse qual fosse a intensidade e a intenção da chuva, ela sempre me convidava a escrever. A umidade no quarto era palpável. Na pele, nos olhos e nos pulmões. A escrivaninha à esquerda da cama, beirando à cabeceira, era singela, de madeira marrom clara com infinitas pequenas nervuras que lembravam as veias do corpo humano. Ah, como eu gostava dessa escrivaninha. De todas as minhas primeiras memórias como escritora, não foram as personagens, ou os diálogos cheios de poesia, que me levavam de volta aquele tempo, mas a escrivaninha...Ah, essa sempre me leva praquele meu primeiro quarto de minha infância.

O primeiro romance que escrevi devia ter umas cinquenta páginas. Falava de um casal adolescente que se apaixonava, sem ressalvas e sem juízo, um pelo outro. Era, porém, um amor proibido. Sempre é. Afinal, quantos romances sobre amores possíveis você já leu? Era uma narrativa típica de escritoras prematuras como eu. Pouca estrutura linguística e muita paixão pelo que se queria dizer. Na vida real, eu não amava ninguém, mas fantasiava amar um dia. E por nunca ter amado, eu ia preenchendo as páginas daquele caderno com cenas românticas dos filmes hollywoodianos que eu via na tevê. Quando a gente se mudou pra nova casa, o livro se perdeu nas caixas da mudança, e eu também. Só fui achar uns vinte anos depois. Não o livro, esse se perdeu para sempre. mas aquele olhar curioso que eu gastava nas laudas recém-preenchidas do caderno.  

Escorpiana, filha da Lua e descendente das águas emergenciais do Atlântico. Quem diz isso não sou eu, é o mundo. Ou, quem sabe, uma cartomante na saída do bar em uma das tórridas noites paulistanas de dezembro. Escrever era, há muito, uma ideia distante, impraticável. Quem diz isso não é mundo, sou eu. Refém da minha incredulidade ou, quem sabe, dessa voz insistente e incansável que venho alimentando nos últimos anos de abandono à literatura. 

Com o passar dos anos, eu ia vivendo dessa forma, preenchendo esse hiato com poesias isentas de compromisso e recados sofisticados na porta da geladeira, mas a ideia do livro era um fantasma diplomático, quase amigo. Desses que a gente apresenta pro mundo, mas que nos permitem dormir à noite. O que você faz? Eu sou escritora. Onomatopeias de curiosidade. O que você escreve? Estou trabalhando na ideia de um livro que quero escrever. Onomatopeias de admiração. Escrever um livro? Nossa, isso é incrível— dizem. E eu, conivente com a fantasia, vou concordando. Como se falar do livro fosse mais importante do que o próprio livro. A miragem da recompensa vai parindo essa cobiça por escrever, mas essa fagulha de desejo se dilui com a passar das horas, então durmo e já é o próximo natal.

Muita coisa mudou desde 1998. Descobri que gostava de invernos rigorosos e dos ruídos noturnos da noite paulistana. Parti. Viajei para além das barreiras continentais da minha língua. Deparei-me com uma Paris ensolarada e gentil, diferente daquela que aprendi com o cinema noir. Fui-me abarrotando desses lugares, dessas experiências. Como uma criança faminta e curiosa que nunca havia vivido coisas novas na vida. Ia me espantando com a novidade desses lugares e suas horas. O tempo da Europa é um tempo diferente do tempo do Brasil. Da porta do hotel pra fora, era como se tivéssemos viajado no tempo e fosse o Século XVIII novamente. Ia vivendo os dias, degustando-os, dormindo sobre eles até o dia em que não dormi mais. Uma insônia quieta ruminava baixinho com o avançar da noite. Não tinha forma que eu pudesse descrever à priori mas, com o passar do tempo, evoluíam: a insônia e suas características. As personagens, que edifiquei na minha imaginação, visitavam a noite vigilante, reivindicando vozes próprias. Queriam ocupar terrenos literários que sequer existiam, mas que elas sabiam que, em mim, habitavam. A diplomacia da espera se dissipou, escrever se tornou um fantasma urgente, que me olhava nos olhos sem desviar e falava alto, assim, com as mãos no ar em meio à ruídos.

Comecei a escrever devagar e timidamente. Vinha pensando numa ideia anterior àquela que, eventualmente, nutriu as primeiras páginas do romance. Havia uma excitação no campo das ideias, uma hesitação também. E a vida, protagonista de tudo, ia se instalando no meio do caminho. Nunca dava tempo de escrever. O momento ideal morava longe dali. A ideia da hora certa para escrever é uma, talvez, uma das grandes  falácias já contadas pelo homem. É uma dessas invenções escrotas do mundo que, se a gente não acreditar, a gente morre. De desgosto ou de urgência. Então me pus a escrever na mais inadequada e desconfortável das horas: o agora.

Escrever é solitário, é performar num palco vazio. A plateia só se acomoda nos assentos depois que as cortinas abrem e o palco está pronto. Ninguém me preparou para a solidão que é escrever. Talvez porque não haja preparo mesmo. Cada escritor talha o próprio caminho dentro de sua escrita. Escrever é processo, não é recompensa. Nunca vai ser. Então por que escrevo? Aprendi que escrever também é pergunta, nunca é resposta. O meu fantasma, antes diplomático, tinha nome, mas era nome indecifrável, que eu só traduzi quando cheguei perto da minha escrita. Se chamava "Por que não?". Ninguém te pediu pra escrever, ouvi certa vez. Será então que escrevo pra mim? Todo escritor escreve pra si, fui descobrir depois.

O livro que escrevo é um emboscada da qual não desejo escapar. 

A escrita é um labor que aceito com alegria. Se não me rendo, ele me sepulta. E essa condição, a contrário do que muitos possam pensar, não é uma prisão. É um labirinto emaranhado de roteiros para uma liberdade que talvez exista, talvez não. A adrenalina mora no não saber, mas decidir seguir mesmo assim. Na derradeira página, a minha protagonista observa, de longe, uma realidade que não lhe pertence. Ela tateia a bolsa, acha o celular para chamar um táxi.  Está pronta para partir, mas fica ali por um tempo. Observa uma família em seu jardim que acabou de passar por uma enorme tragédia. Morte e lágrimas. Decide ligar para alguém que ama, conta-lhe frivolidades numa tentativa desesperada de se conter, de não abrir o coração. A gente tende a fazer isso na ficção e na vida real. Mas qual é a diferença mesmo? O livro acaba e ela permanece ali, prestes a partir. A ideia, afinal, é essa. Ela não vai embora porque ninguém nunca vai e isso, para mim, é a grande sacada da vida. Tenho me sentido assim ultimamente, arredia com despedidas. Queria que ninguém nunca fosse embora, pra te dizer bem a verdade. Escrever talvez me dê isso de presente. Afinal, enquanto as páginas estiverem rolando, as personagens nunca morrem.

Faz uns trinta anos que tô tentando escrever esse livro. Repare que alguns fantasmas, quando acolhidos, deixam de nos assombrar. Tornam-se até amigos, iniciam diálogos memoráveis. O que antes era medo, agora é memória e construção. A história que acenava veementemente para mim, pedindo pra ser contada, pode finalmente dar as caras. Convidar novos rostos para dialogar.

Sigo escrevendo porque não sei mais não escrever. Afinal, trata-se do caminho, nunca da chegada e essa verdade me impede de morrer. Como um passarinho que é empurrado ninho abaixo pela mãe-pássaro no seu voo de estreia. A mãe-pássaro reconhece o som das próprias entranhas a lhe dizer que o passarinho não está totalmente pronto para voar, mas que ele está pronto o suficiente para ser lançado. Eu fui passarinho por muito tempo, apavorada por desconhecer altitudes. Chegou a hora de ser mãe-pássaro.

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