O Ano Era 2020
O mundo morre aos poucos lá fora, mas muitos têm o privilégio de assistir o enterro sem sair de casa. Inclusive eu. Já faz mais de quarenta dias que espero tudo isso passar. Mas não passa, então durmo. Me canso de dormir, então acordo. Me canso de acordar, então café. Me canso de café, então banho. Trabalho remoto para preencher o dia e ligações noturnas para quem, há muito, não falo.
O sono chega, que alegria. Para a gente acordar desse sonho longo e ruim. Pandemia, demônio. Pandemônio. Irmão gêmeo do caos. A ordem contrária do cotidiano do mundo. Quando a rotina era um privilégio que a gente menosprezava. E a escassez de tempo tinha lá suas vantagens.
Ergo vagarosamente o tronco repousado sobre a cama. Primeiro a cabeça com os olhos já abertos a fitar o teto imutável. Os ombros se equiparam sobre os cotovelos ainda aquecidos debaixo da coberta. Da parede oposta, ela me olha. A mala pequena aberta no chão. Blusa lilás, suéter verde-escuro e jeans. Separei roupa para duas semanas numa viagem que deve durar três meses. As roupas, tão desorientadas quanto eu, vão caindo para fora da mala. Penduradas, tentam escapar de dentro dela ou, quem sabe, ensaiam um suicídio coletivo. Extra! Extra! A moça que não sabe fazer mala para o apocalipse acordou. Run for your lives!— esse lance de criatividade na crise é um troço engraçado. É um desafio fazer mala em tempos de incerteza, mas escrever na crise é moleza. É terreno fértil da gota serena.
Escrever na crise não é moleza, não. É só válvula de escape pra gente não endoidar.
Quando a crise se instaurou, tentei manter a normalidade. Alguns diziam que a gente se comporta assim para não enlouquecer tão rápido, eu já acho que é porque a ficha demora a cair mesmo. Nos primeiros dias, eu tirava a roupa da mala com cuidado, uma a uma, respeitando a ordem em que as coloquei a princípio. Daí eu acordava e a mala me olhava, organizadinha.
Olha que prendada que eu sou mesmo com o mundo se acabando lá fora!
No entanto, as notícias foram ficando mais preocupantes. A gente tentou achatar a tal da curva. Teve muita conversa, discordância e competição de tamanhos. É mais ou mesmo assim que acontece. Tem sempre alguém querendo ser chamado de herói antes mesmo do final da guerra. Alheia àquela discussão toda, eu só queria mesmo era ser heroína de mim mesma. Vencer mais um dia de espera. Não surtar. Manter a mala organizada. Umas das incontáveis Guerras Frias do isolamento social.
Aquele corpo aberto no chão, o coração pulsando no ritmo da rotina. As roupas, órgãos expostos olhando para mim: "Mantenha a calma! Organize-se! Organize-me!
Tenho incalculável apreço por metáforas intensas. Os tempos atuais também são intensos, demandam mais esforço da gente e isso cansa também. Levanto da cama. Ponho a roupa, tiro a roupa, lavo a roupa. Guarda ela novamente na mala. O pacifismo entre nós não durou nem duas semanas. Falhei. Falhei miseravelmente.
O número de mortos foi crescendo no noticiário. A curva, que tentamos achatar, nos esmagou. Nos hospitais, a guerra tem sido da porta para dentro. A gente nunca vai saber como foi realmente. Todos contarão estórias e histórias. A mídia, os políticos e os heróis. Porque em sistema de saúde colapsado durante uma guerra, médicos e enfermeiros são todos heróis. Daqui uns cem anos, vai ter muito historiador estudando eles porque a gente registra tudo nos smartphones da vida. Os atos heróicos e os atos genocidas também. Alguns estadistas que se cuidem.
Tem três ou quatro semanas que a quarentena começou? Abril. Abismo. É quase maio. A mala olha para mim, talvez me julgue. Não sabe o que anda acontecendo no mundo. Quando mudei para Nova Iorque, trouxe a minha vida dentro de duas malas grandes, uma mochila e uma bolsa de passear. Daí veio o coronavírus, e a minha vida tem cabido numa mala pequena de bordo há quase um mês. A mala contém a vida ou a vida contém a mala?
Deu saudade de casa, da cafeteira no balcão da cozinha que não vejo faz umas trinta manhãs. Pensei na correspondência triste, empilhada ao pé da porta. Tudo ficou para trás. Só não ficou a pandemia. Essa veio comigo. Porque ela está em toda parte. Invisível, só esperando a gente relaxar e pôr a mão suja no rosto.
Enquanto isso, a gente vai ficando aqui. Esperando tudo passar. A pandemia, a preocupação e a pressa. Tudo em dose homeopática para a gente não enlouquecer. De medo ou de tédio. Quando não existia avião, a gente levava meses para cruzar oceanos. As pessoas se arrumavam e iam curtindo o caminho, afinal, não havia jeito. Depois que a gente aprendeu a voar, perdemos o tesão pelo trajeto. Coitado do voo que se atrasar cinco minutos.
A nossa relação com o tempo mudou. O destino é uma ideia alegre. O percurso, náusea. O foco agora é chegar. Chegar, chegar, chegar o mais rápido possível. Tudo o que a gente quer é chegar. Esperar é coisa de gente velha, porque o mundo é jovem. Mundo Novo. E ser jovem é velocidade e destino. Essa peste fantasmagórica. Imediatismo. Daí veio a pandemia e tudo o que nos resta é espera, nunca chegada.
Mas quem espera sempre cansa. Confesso que às vezes vou dormir ansiosa, esperando acordar no dia seguinte e encontrar a mala organizada, mas deixar mala organizada por muito tempo não é o meu forte. Planilhas, tarefas diárias e narrativas longas, isso sim. Mas, mala de viagem? Mala de viagem, não.
Levanto da cama, olho para a danada, derrotada no chão. Penso em me aproximar, talvez agachar para escolher a roupa de hoje, mas a cafeteira começou a assobiar lá da cozinha. Foda-se. Vou é pôr uma xícara para mim antes que o café esfrie.